
Sim, mãe. É isso mesmo que você está lendo. Eu sei que você tem vergonha de escrever no blog, e por isso fica me enrolando dando as desculpas de sempre: aulas, palestras, viagens, cursos...
Estou aqui na sua casa mexendo em tudo, como sempre. Adivinhe o que eu peguei como quem não quer nada! Aquele seu caderno, com todas as crônicas que você escrevia para o jornal.
Resolvi separar uma das mais lindas e publicar aqui no blog. Tenho certeza de que você não vai se importar, afinal este texto saiu no jornal "Correio da Semana" no dia 29-11-1969.
Eu te amo muito e tenho certeza de que minhas leitoras vão se emocionar tanto quanto eu.
" MÃOS
Era outono. Era uma praça. Era um banco.
As folhas que já principiavam a cair com certa frequencia, formavam a nota dominante em cada palmo da praça.
Havia sol. Mas um sol pálido, que parecia querer acabar o trabalho de iluminação desta nossa pobre Terra mais cedo, entregando-a às estrelas e à lua.
Eram duas mãos. Mãos de mulher. Descansavam ambas em um mesmo banco de praça.
Uma era linda. Outra era vulgar.
Uma era branca, muito branca e longa, muito longa. E era perfumada...e que perfume!
A outra era pequena, com dedos nodosos e unhas rotas. Também perfumava, mas era um odor acre: perfume barato, usado talvez por vaidade feminina ou apenas para simular o cheiro de alho e da cebola que se advinham presentes em cada fibra que a constituia.
Uma parecia destinada a afagos. A outra, à cozinha.
A primeira, resplandecia em um anel muito rico. A segunda, jamais conseguiria disfarçar o valor da imitação barata que ostentava.
Eram duas mãos. Mãos de mulher. Descansavam ambas em um mesmo banco de praça.
Uma eclipsava a outra, pela simples proximidade. E a outra recebia o fato natural e humildemente.
O sol, que estava pálido, acabou por ir-se embora totalmente e a noite chegou fria.
Uma das mãos foi imediatamente agasalhada nos bolsos de um belo casaco. A outra, contentou-se em retrair-se.
Eram mãos. Mãos de homem. Mãos que tomaram outra em si, levando-as, aquecendo-as. Dando o melhor calor que poderiam desejar.
Ficou no banco uma bela mão. Aquecida sim, por um belo casaco. Mas apenas por um belo casaco..."
Autora: Angela Chichierchio, minha mãe tão amada, que tem as mãos mais acolhedoras e talentosas do mundo.
(espero que, depois dessa, você não me deserde!)




