A vida da minha família pode ser classificada em A.A (Antes do Autismo) e D.A (Depois do Autismo).
Desde que fomos diagnosticados como "dentro do espectro do autismo", tudo mudou radicalmente.
A vida está pior? Sim.
A vida está melhor? Sim, também.
Mudaram os sonhos, as perspectivas, os motivos de decepção e comemoração, e ouso afirmar que mudou até o amor que sentimos pelo nosso filho. Hoje, se é que é possível, ele está mil vezes maior.
Quando temos um filho com esse problema, aquela criança que foi idealizada e sonhada morre. E após toda morte segue-se um luto. O luto tem 5 fases, que eu conheço de cor e salteado!
Passamos por cada fase do luto, e hoje podemos dizer, sem sombra de dúvida, que tivemos muita sorte!
Temos sorte por ter um
filho maravilhoso, lindo e carinhoso. Sorte por ele ter recebido um
diagnóstico precoce, algo que faz toda a diferença (duvida? leia esse relato
AQUI). Sorte por ele ter um
autismo muito leve, tão leve, que muitas pessoas não acreditam quando eu conto, pois nunca desconfiaram. Sorte por ele não ter nenhuma estereotipia. Sorte por ser autismo e não
leucemia ou outra coisa pior.
Sorte por estarmos cercados de ótimos profissionais, que são as nossas fadas-madrinhas (depois eu passo os contatos de fono, psicóloga, neurologista, terapeuta, por e-mail, para quem precisar). Sorte por ele melhorar a cada dia que passa. Sorte por termos apoio inesgotável de amigos, familiares e leitores do mundo todo. Sorte por conseguir manter a cabeça erguida e o senso de humor intacto (é mais fácil falar do que fazer).
O autismo foi um tremendo professor para mim (daqueles que queremos ver pelas costas, mas que depois percebemos o quanto foi necessário para o nosso aprendizado).
Aprendi a ter mais humildade.
Não é que eu fosse besta, metida. Nunca fui assim. Mas eu tinha umas opiniões e pontos de vista, que me faziam julgar as pessoas. Exemplo clássico: criança fazendo birra em shopping. Antes, eu achava isso um absurdo. Coisa de gente sem educação, que não devia nem sair de casa. Hoje posso dizer que isso já aconteceu comigo... algumas vezes... e dessa forma eu não julgo mais ninguém. Nada como ter telhado de vidro.
Aprendi a ter mais paciência.
Sem paciência, você não dura nem um dia no "mundo do autismo". Estou até ficando meio zen, coisa que nunca fui. Depois de ter um filho com esse problema, aquela pessoa que anda com o carro a 40 Km/h não será mais capaz de te irritar.
Aprendi a perceber se uma criança está com um comportamento anormal. E já alertei a três pais sobre isso.
Aprendi a superar nojo de saliva. Eu nunca tive problemas com urina, fezes, pus, sangue, etc. Mas de alguma forma, suor e saliva me incomodavam. Eu detestava ganhar o tal "beijo babado", a não ser, claro, em momentos de intimidade, que não sou tão fresca assim.
Mas sabe aquelas tias suadas, que babam a pessoa? Então, hoje em dia tiro isso de letra.
Lá na fono do Gabriel, tem um menino de uns 13 anos, com um autismo gravíssimo.
Ele não fala e baba bastante, a saliva dele é espessa, e quando ele baba em mim, o líquido chega a fazer uma ponte. Mais ou menos assim:
Isso acontece porque meu filho entra na hora em que ele sai, e ele adora meu celular e o tablet que carrego para distrair o Gabriel. Então, ao nos ver, ele vem na nossa direção, se inclina sobre nós, e dá aquela babada enquanto mexe nos aparelhos.
E eu? Eu deixo. Podia ser meu filho naquela situação. Podia ser o seu. Na verdade, um dia o meu pode amanhecer assim. E se isso acontecer, não seria legal ele babar sobre uma pessoa que o aceite?
De forma que, as semanas foram passando, e com o tempo aquilo foi me incomodando cada vez menos.
Aprendi que dieta sem glúten e sem lactose pode ser uma delícia!!!Preciso admitir que não levava fé que essa dieta teria um impacto tão enorme no comportamento dele, e que não seria um sofrimento tão grande realiza-la. Obrigada pela indicação que vocês me deram do leite Piracanjuba, é mesmo uma delícia!
Aprendi com outras famílias, com terapeutas, com VOCÊS, com o Gabriel, com o Dr. Google, e algo me diz que ainda tenho muito o que aprender.
Gabriel me ensinou em 2 anos e meio, coisas que a vida não conseguiu em 35 anos de existência!
(UAU, revelei minha idade!)